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Athletico: 10 anos de grama sintética e as controvérsias que moldam o futebol brasileiro
Por Redação FutCAP em 24/02/2026 17:07
Uma década se passou desde que o Athletico Paranaense deu início a uma nova era em seu estádio, a Arena da Baixada, com a introdução de um gramado sintético. Este marco, celebrado em 24 de fevereiro de 2016, também marcou o começo de um dos debates mais acirrados no futebol brasileiro.
A partida inaugural com o novo piso artificial foi um triunfo por 1 a 0 contra o Criciúma, em um confronto válido pela então extinta Primeira Liga. O volante Otávio, que mais tarde defenderia o Fluminense, foi o responsável por inaugurar o placar no tapete tecnológico.
Motivações por Trás da Escolha Inovadora
A decisão de abandonar a grama natural e adotar o sintético não foi aleatória. Dois fatores primordiais impulsionaram essa mudança: a escassez de luz solar direta sobre o campo e a peculiaridade de um rio que corre sob as fundações da Arena da Baixada. Fernando Volpato, diretor de operações do Athletico, explicou que, apesar das tentativas com iluminação artificial, os custos se mostraram proibitivos.
"Na época, a decisão foi motivada pela impossibilidade de manter qualidade do gramado natural, que depende da natureza. De sol, umidade, temperatura. Aqui na Arena tinha uma mancha de sombra muito forte do lado da Getúlio Vargas. O Athletico tentou iluminação artificial, usou o que era possível, e não conseguimos. A decisão foi acertada, dez anos depois outros clubes estão seguindo esse caminho", declarou Volpato ao ge.
A tecnologia empregada atende às exigências da FIFA, que requer uma certificação de qualidade anual, conhecida como FIFA Quality Pro. Contudo, a entidade máxima do futebol mundial não utiliza este tipo de superfície em competições de grande porte, como a Copa do Mundo. O Athletico obteve sua certificação mais recente no início deste mês.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afirmou, em nota enviada ao ge, que acompanha a questão com grande atenção, mantendo um diálogo constante com todas as partes envolvidas, incluindo clubes, atletas, comissões técnicas e especialistas. A entidade ressalta que qualquer adoção de gramado sintético deve seguir rigorosamente os critérios técnicos estabelecidos pela FIFA.
Desempenho e Vantagem Tática: A Perspectiva do Athletico
Um dos pontos mais debatidos é a suposta vantagem competitiva que os times mandantes teriam ao jogar em gramados sintéticos. Um levantamento realizado pelo ge revela um aproveitamento considerável do Athletico na Arena da Baixada ao longo da última década. Foram disputados 362 jogos, com 215 vitórias, 83 empates e 64 derrotas, totalizando um índice de performance de 67,03%.
Em anos específicos como 2016, 2018, 2019 e 2023, o desempenho do Furacão superou a marca de 70% dos pontos disputados. Em contrapartida, 2021 e 2024, este último marcado pelo rebaixamento, apresentaram os índices mais baixos, com a equipe alcançando cerca de 60% de aproveitamento no piso artificial.
Após a recente vitória contra o Santos, o técnico Odair Hellmann minimizou a ideia de uma vantagem exclusiva para o time da casa, argumentando que "se o gramado dificultou, foi para os dois lados".
Renovação e Investimento: O Futuro do Gramado da Arena
Há pouco mais de um mês, o Athletico anunciou a substituição do atual gramado sintético da Arena da Baixada. O novo piso será instalado entre 1º de junho e 19 de julho, durante a pausa do Campeonato Brasileiro em virtude da Copa do Mundo. A tecnologia escolhida é da FieldTurf, empresa responsável por gramados em outros estádios brasileiros, como a Arena MRV (Atlético-MG), o Engenhão (Botafogo) e o Mercado Livre Arena Pacaembu.
De acordo com o clube, o novo sistema se destaca pelo "shock pad", uma camada de amortecimento projetada para absorver impactos. Adicionalmente, haverá a transição do composto de fibra de coco para cortiça, visando aprimorar a experiência de jogo.
O investimento do Athletico em seu novo gramado sintético está orçado em R$ 4 milhões.
Fernando Volpato detalhou que, embora não exista um prazo de validade fixo para a troca do gramado sintético, o clube optou pela substituição. "A nossa expectativa era de 10 anos, porque o fornecedor assumiu em contrato, mas a gente aguardou para fazer a troca por conta das manutenções. A última sinalizou que poderíamos fazer tranquilamente mais uma ou duas temporadas. Está homologada até fevereiro de 2027, mas vamos aproveitar para fazer a troca no meio do ano", explicou.
A Ascensão da Grama Sintética no Cenário Nacional
A Série A do Campeonato Brasileiro de 2026 promete ser um marco histórico, com a presença de cinco estádios equipados com gramado sintético, um recorde inédito na competição. O Palmeiras foi pioneiro ao instalar o piso sintético em seu Allianz Parque em 2020. Três anos depois, o Botafogo seguiu o exemplo no Nilton Santos .
No ano passado, o Atlético-MG, na Arena MRV, e a Chapecoense, na Arena Condá, também fizeram o investimento. Atualmente, 25% dos estádios da elite do futebol nacional contam com este tipo de superfície.
Um Tema Divisor no Futebol Brasileiro
A questão do gramado sintético tem gerado divisões significativas no futebol brasileiro ao longo da última década. Em fevereiro do ano passado, um movimento de jogadores de renome, incluindo Neymar, Thiago Silva, Bruno Henrique, Philippe Coutinho, Lucas Moura e Gabigol, manifestou-se nas redes sociais com a mensagem: "Juntos pelo espetáculo. Futebol é natural, não sintético".
As críticas não se restringem apenas a jogadores. O atacante holandês Memphis Depay, do Corinthians, é um dos detratores mais vocais do gramado sintético, tendo se referido ao piso da Arena da Baixada como um "campo horrível" após uma partida contra o Furacão.
Em dezembro de 2025, uma parcela dos clubes da Série A solicitou à CBF a suspensão da homologação de novos gramados sintéticos, aguardando um estudo aprofundado e uma decisão oficial sobre o assunto.
Uma pesquisa realizada pelo ge com os 20 clubes da Série A revelou a polarização do tema: sete clubes se posicionaram contrários à grama sintética (Bragantino, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Internacional, Remo e São Paulo), cinco se declararam favoráveis (Athletico-PR, Atlético-MG, Botafogo, Chapecoense e Palmeiras), e oito optaram por não se manifestar (Bahia, Coritiba, Fluminense, Grêmio, Mirassol, Santos , Vasco da Gama e Vitória).
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